Dr. Caio Matsubara
Artigo Educativo

exercicio-e-terapia-na-depressao

Por Dr. Caio Matsubara

Dr. Caio Matsubara
Clínico Geral • Saúde Metabólica
CRM-PR 33753 | RQE 22459

Exercício ajuda na depressão quando a cabeça pesa e o corpo não responde?

Tem dias em que o paciente descreve assim: “não é preguiça, é como se eu não tivesse bateria”. E aí vem a culpa, o medo de estar piorando e a dúvida sobre o que realmente faz diferença.

Uma revisão grande e atualizada de ensaios clínicos (Cochrane, janeiro de 2026) voltou a colocar o exercício no mesmo patamar, para muitas pessoas, de abordagens consagradas como psicoterapia e antidepressivos para reduzir sintomas no curto prazo. Isso não significa que exercício seja “substituto universal”, e sim que ele pode ser parte real do tratamento.

No consultório, o ponto-chave é transformar “eu sei que ajuda” em um plano que caiba na semana do paciente, com começo simples e continuidade possível.

Exercício substitui terapia ou remédio?

Essa é uma pergunta direta e justa. A resposta mais honesta é: depende do seu quadro, da gravidade dos sintomas, do que já foi tentado e do que você consegue sustentar.

A revisão recente sugere que, em média, programas estruturados de exercício podem reduzir sintomas de depressão de forma semelhante à terapia e com efeito comparável ao de antidepressivos em alguns estudos. Mas isso não autoriza ninguém a “trocar tudo por caminhada” sem avaliação.

No consultório, eu costumo enquadrar assim: exercício pode ser uma via de tratamento (às vezes como estratégia principal, muitas vezes como complemento), e a escolha deve ser combinada. Para algumas pessoas, a melhor decisão é somar exercício + terapia; para outras, começar pelo exercício é o que abre caminho para todo o resto (sono, rotina, alimentação, vínculo social).

Um detalhe prático: muitos estudos envolvem atividade planejada, com orientação e regularidade. Isso é diferente de “tentar quando der”. O resultado costuma acompanhar a consistência, não a perfeição.

E se eu não tiver energia para começar?

Essa é a frase que eu mais escuto. E é aqui que muita gente se perde, porque tenta iniciar “como se estivesse bem”. O erro mais comum é colocar uma meta grande demais e transformar o primeiro tropeço em prova de fracasso.

Mini-caso (anônimo):
Um paciente chegou dizendo que acordava exausto, trabalhava no automático e à noite só queria deitar. Tentou “voltar para a academia” e desistiu no terceiro dia, se sentindo pior. Ajustamos para 8–12 minutos de caminhada leve após o almoço, 4 vezes por semana, sem meta de desempenho. Em poucas semanas, ele relatou menos “travamento” para iniciar tarefas e passou a tolerar sessões um pouco mais longas. Não foi milagre; foi ajuste de dose e ritmo.

Quando a energia está baixa, o objetivo inicial não é “queimar calorias”: é baixar a barreira de entrada. O começo precisa ser tão pequeno que pareça “fácil demais”. Isso dá chance para o cérebro reaprender que movimento não é ameaça.

O que no corpo pode melhorar com movimento

Muita gente acha que depressão é “só psicológico”. Na prática, corpo e mente andam juntos. Alguns mecanismos que fazem sentido no dia a dia:

  • Sono: movimento regular ajuda a regular o ritmo do corpo, e sono ruim amplifica irritabilidade, ansiedade e tristeza.
  • Eixo do estresse (eixo HPA): é o sistema que coordena resposta ao estresse e influencia energia, apetite e sono. Em linguagem simples: é o “termostato” do estresse; quando desregula, o corpo fica em alerta ou esgotado.
  • Inflamação: em algumas pessoas, marcadores inflamatórios se associam a fadiga, desânimo e pior recuperação. Em linguagem simples: é como se o corpo ficasse “irritado por dentro”, gastando energia sem perceber.
  • Metabolismo: resistência à insulina, ganho de peso e sedentarismo podem piorar disposição e autoestima, e vice-versa. Se você quiser entender esse encadeamento de forma bem pé no chão, vale ler também: síndrome metabólica: aviso, não sentença.

Importante: isso não significa que “exame resolve depressão”. Significa que, ao cuidar do corpo, muitas vezes você reduz ruídos que alimentam os sintomas.

Imagem ilustrativa (alt sugerido: exercicio e depressao com rotina simples) mostrando um calendário semanal com sessões curtas e progressivas.

Exames relacionados

Nem todo mundo precisa de uma bateria de exames para começar a se movimentar. Mas, quando o paciente chega com fadiga importante, sono péssimo, ganho de peso ou queda de desempenho, alguns exames ajudam a procurar “freios biológicos” que atrapalham a melhora.

  • Hemograma e ferritina: para investigar anemia e estoques de ferro (falta de ferro pode dar cansaço e piorar tolerância ao esforço).
  • TSH (tireoide): alterações podem bagunçar energia, humor e sono.
  • Glicemia, insulina (quando indicado), HbA1c: para avaliar controle glicêmico e possível resistência à insulina (quando a glicose entra pior nas células, a sensação de energia pode ficar “capenga”).
  • Perfil lipídico: conversa com risco cardiometabólico e estratégia de estilo de vida.
  • Vitamina B12 e vitamina D (quando há contexto): não são “cura”, mas deficiências podem contribuir para sintomas inespecíficos.
  • PCR-us (em casos selecionados): marcador inflamatório; útil quando há suspeita de inflamação crônica no contexto metabólico.

No consultório, eu sempre conecto exame a decisão prática: “Se vier X alterado, o que isso muda no seu plano?” Se não muda nada, muitas vezes não vale pedir.

O que você pode fazer na prática

Se o objetivo é ajudar sintomas de depressão, o “melhor exercício” é o que você consegue repetir. A revisão recente sugere que intensidades leve a moderada podem ser suficientes para muitas pessoas, e que programas com número de sessões consistente tendem a funcionar melhor do que tentativas esporádicas.

Um plano de 4 passos para começar sem se quebrar

  • 1) Comece pequeno: 8–15 minutos, 3–4x/semana. Se hoje só dá 5, tudo bem. O objetivo é comparecer.
  • 2) Escolha a modalidade “sem atrito”: caminhada, bicicleta leve, dança em casa, musculação com cargas baixas. Misturar aeróbico + força costuma ser uma combinação bem tolerada.
  • 3) Crie um gatilho fixo: depois do almoço, ao sair do trabalho, ou antes do banho. Rotina vence motivação.
  • 4) Registre só o básico: “fiz / não fiz” e “como me senti depois”. Isso ajuda a perceber ganhos sutis (sono, ansiedade, apetite), não só humor imediato.

Como saber se está na intensidade certa

  • Leve: você consegue conversar frases completas.
  • Moderada: você conversa, mas com pequenas pausas para respirar.
  • Muito intensa: vira sofrimento e aumenta chance de desistir (principalmente no início).

No consultório, eu vejo que o exercício “perfeito” que vira punição tem menos efeito do que o exercício “bom o suficiente” que vira hábito.

Quando considerar acompanhamento

  • Se você tem dor, lesão, muita insegurança ou medo de piorar.
  • Se o plano falha toda semana e você precisa ajustar barreiras (sono, agenda, alimentação, ansiedade).
  • Se você quer integrar exercício com metas de saúde metabólica de forma individualizada.

Perguntas frequentes

Preciso fazer academia para ter benefício?

Não. Caminhada, bicicleta, dança, exercícios com peso do corpo e treino de força guiado em casa podem funcionar. O essencial é regularidade e progressão cuidadosa.

Exercício piora a ansiedade?

Em algumas pessoas, começar muito intenso pode aumentar desconforto. Por isso, início leve a moderado costuma ser melhor. Se houver crises de pânico, vale ajustar com orientação.

Quanto tempo demora para eu sentir alguma diferença?

Varia. Algumas pessoas percebem melhora de sono e “clareza” em poucas semanas; outras precisam de mais tempo. O foco inicial é constância e redução de barreiras, não pressa.

Posso parar o antidepressivo se eu começar a treinar?

Não faça mudanças por conta própria. Se houver esse objetivo, ele deve ser discutido com seu médico, com plano de redução gradual quando indicado e monitoramento de sintomas.

Qual é melhor: aeróbico ou musculação?

Os dois podem ajudar. Na prática, combinar um pouco de aeróbico com treino de força costuma ser uma escolha eficiente e sustentável para corpo e humor.

Quando procurar avaliação médica

  • Tristeza ou perda de interesse na maior parte dos dias por mais de 2 semanas, com prejuízo claro no trabalho, estudos ou relações.
  • Piora progressiva, isolamento importante, ou sensação de que “não dá para segurar”.
  • Pensamentos de morte, autoagressão ou falta de segurança para ficar sozinho (nesse caso, procure ajuda imediata).
  • Insônia persistente, perda ou ganho de peso marcante, fadiga intensa sem explicação.
  • Uso de álcool ou outras substâncias para “aguentar o dia”.
  • Dor no peito, falta de ar desproporcional, desmaios ou sintomas físicos importantes ao tentar se exercitar.

Exercício pode ser uma ferramenta terapêutica real, mas o melhor plano é o que respeita seu ponto de partida, sua saúde clínica e o que você consegue manter. Quando a gente individualiza, fica mais fácil transformar movimento em rotina e rotina em melhora.

Se fizer sentido para você, uma consulta pode ajudar a alinhar sintomas, exames (quando indicados), sono, estresse e estratégia de atividade física dentro de um plano realista.

Agende sua Teleconsulta Metabólica

Análise detalhada de exames e plano de cuidado individualizado.

Falar com a equipe no WhatsApp

Não trate apenas o sintoma

Busca um acompanhamento mais próximo?

Consultas isoladas muitas vezes não resolvem a raiz do problema. Conheça meu modelo de acompanhamento intensivo.

Quer resolver de vez? Ver Protocolo